Invenção de Orfeu – Canto III (Poemas Relativos)

Performance poética musicada · Coletivo · registro 2010

Identificação básica

Título: Invenção de Orfeu – Canto III (Poemas Relativos)
Ano da apresentação registrada: 2010
Tipo: Performance poética musicada · Coletivo
Composição original do poema: Jorge de Lima
Coletivo: O Sujeito Poético
Participantes: Bruno Daniel Bortoleto · Diego Santos · Thiago Oliveira · Bruno Pastore · convidados
Função de Bruno: Percussão
Status: Acervo · Registro de performance ao vivo


Apresentação / Contexto

A performance de Invenção de Orfeu – Canto III integra as ações presenciais do projeto coletivo O Sujeito Poético, ampliando a escrita para o campo da oralidade, do corpo e da música. O poema de Jorge de Lima é recitado e musicado em formato de sarau, configurando um gesto de mediação literária por meio da performance.

Realizada em Jarinu/SP (2010), a apresentação articula poesia modernista e experimentação sonora, deslocando o texto do livro para o espaço compartilhado. A música, nesse contexto, não funciona como acompanhamento decorativo, mas como atmosfera e sustentação rítmica da palavra recitada.

A performance reforça o caráter híbrido do coletivo: escrita, música, oralidade e encontro público se entrelaçam, dissolvendo fronteiras entre autor, intérprete e mediador cultural.


Letra/Texto

depois me espreitona curva adiante, simbolizado, metade em mim inda nascendo, a outra metade superlotada; então me sano excluindo as nucas executáveis; não evidentes nem aberrante me envolvo de alma, doce alimária com alguns anexos aparelhados para colher belas paisagens e outros petrechos do sósia amado; quero sofrer-me, quero imitar-me, fico empunhado meu corpo no ar, dependurado, meio aderido a alguns palhaços insimulados, portanto, instáveis, muito insossos, muitos até beatificados; ventos corteses bem-parecidos vêm agitar nosso espantalho, enquanto as aves canoramente se desaninham de nossos braços, ossos atados a chão deitados, chãos contestados por figadais, mas afinal chãos estrelados de algumas plantas ambicionadas por umas moças que andando sós se despetalam e virar brisas, fagueiras asas, pelas janelas passam nos vidros, vão aos relógios, param os cucos, e a vila fica inteiriçada. dormindo dentro desse poema recomençado por um novo sósia. As portas finais, os cantos iguais, os pontos cardeais, sempre obsidionais. Os tempos anuais, as faces glaciais, as culpas filiais sempre obsidionais. Os dois iniciais, as dores tais quais, os juízos finais sempre obsidionais. Era uma vinda, dadas as luzes, dadas as faces que ali se achavam, nenhuma espúria, nenhuma enferma, dadas as cores, dadas as falas que ali se achavam; dadas as provas dessas presenças deu-se o milagre em aços doces, em gumes brandos em chamas graves; formou-se um gênio pentangular que começava com a estrela Vésper, riscando a noite sem se acabar; formou-se um lírio na suave treva, gerou-se um grito de tantas vozes, criou-se um fogo correspondente, jorrou-se um pranto desabitado. Era uma tarde: ninguém sabia o que no mundo ia acabar. Sei que houve portas escancaradas, sei que houve apelos antiencarnados. E houve um dilúvio, mas era um fogo desabrochado. Quando menos se pensa a sextina é suspensa. E o júbilo mais forte tal qual a taça fruída, antes que para a morte vá o réu da curta vida. Ninguém pediu a vida ao nume que em nós pensa. Ai carne dada à morte! morte jamais suspensa a taça sempre fruída última, única e forte. Orfeu e o estro mais forte dentro da curta vida a taça toda fruída, fronte que já não pensa canção erma, suspensa, Orfeu diante da morte. Vida, paixão e morte, — taças ao fraco e ao forte, taças — vida suspensa. Passa-se a frágil vida, e a taça que se pensa eis rápida fruída. Abandonada, fruída, esvaziada na morte, Orfeu já não mais pensa, Calado o canto forte em cantochão da vida, cortada ária, suspensa. Lira de Orfeu. Suspensa! Suspensa! Ária fruída, sextina artes da vida ser rimada na morte. Eis tua rima forte: rima que mais se pensa.


Registros e performances

Sarau – Jarinu/SP (2010): https://www.youtube.com/watch?v=WkPdRPmVvaU ↗


Observações

Este item marca um deslocamento importante: a música deixa de ser apenas composição autoral ou banda e passa a operar como dispositivo de mediação cultural. Ao musicar e performar um poema de Jorge de Lima, o coletivo estabelece diálogo com a tradição literária brasileira, reativando-a em contexto contemporâneo e colaborativo.

A presença da percussão evidencia o papel da música como estrutura de sustentação da palavra, aproximando poesia e ritmo e reforçando o caráter comunitário da experiência do sarau.